PORQUE DEU CERTO? AMAMENTAÇÃO E OUTROS PENSAMENTOS
Como sabem, entender as minhas escolhas (ou falta de) no universo da minha maternidade faz parte do que sou como pessoa. Além de uma grande entusiasta dos processos que levam ao auto conhecimento, desde que entendi que para viver uma vida ética é preciso exercer consciência, liberdade e responsabilidade, venho quase que me obrigando a encarar as coisas como um misto do que elas indiscutivelmente são:
eu + o meio
Entender porque as coisas deram errado é para mim o único caminho para a verdadeira redenção. Essa é a vida livre de culpa. Entender o meio e acima de tudo o porque, eu como indivíduo fui conivente com ele.
Mas então eu resolvi pensar nas coisas que deram certo, num exercício diferente: ao invés de investigar as falhas - que podem sempre ser revisitadas - observar atentamente os sucessos.
Me parece que basta ser mulher na cultura ocidental contemporânea para que as tarefas básicas da faceta mãe sejam julgadas como fardos intransponíveis. Muito antes de ter filhos eu já sabia que parí-los seria difícil, dolorido, impossível - como se comprovou no primeiro nascimento. Sabia também que amamentar era um grande desafio, que exigiria um comprometimento intenso - teoria novamente comprovada.
Somos queridas assim: frágeis e incapazes, com corpos que provavelmente vão nos deixar na mão. Olhe à sua volta: tudo diz que mulheres são seres menos capazes. Se elas forem mães então...
Pois bem, o mundo estava pronto: tudo indicava que eu falharia na minha missão de amamentar meus filhos. Nos hospitais, enfermeiras e médicos que continuam passando a mesma "regra" para o amamentar: de 4h em 4h, 20 minutos em cada seio (eu ouvi isso no ano passado, não foi na década de 80). A cada esquina uma farmácia cheia de produtos complementares e substitutos do leite materno. Nas revistas, internet, meios de comunicação de massa, um universo de informações contaminadas que sedutoramente apresentam as grandes vantagens desses produtos. nos consultórios pediátricos mais acessíveis, profissionais com um comprometimento falho com a saúde do bebê e da mãe, usando artifícios antigos, curvas de crescimento generalizadas, espalhando desinformação e não raro, comprometidos com vendas daqueles mesmos produtos. Em toda a família pequenos focos de preocupação. será que ela vai dar conta? Será que o leite é bom? Será que o bebê é guloso? E todas aquelas mitologias que se formam em torno do que deveria ser a coisa mais natural do mundo. Impressionante como ninguém olha uma cadela parida e começa a questioná-la sobre a qualidade do seu leite. Já as fêmeas humanas....
Eu mesma, recém mãe, já havia passado pelo cúmulo da castração na hora de colocar filhos no mundo: já me fora dito que eu não era capaz de parir o bebê. Estava incutido que amamentar seria outro desafio. E em meu entorno próximo duas pessoas: marido e mãe.
Eu e essas duas pessoas foram o começo da fórmula de sucesso das minhas história de amamentação.
Assim como me responsabilizo pelas falhas, responsabilizemo-nos também pelo que deu certo. E quem sabe histórias boas possam se multiplicar.
A combinação foi essa: aquilo que poderia ter servido para me deixar acabada e completamente descrente das minhas capacidades como mulher e mãe foi o grande motivador para o contrário: eu havia falhado na hora do parto. Simplesmente não havia possibilidade se não fazer a amamentação dar certo. Eu precisava me sentir mãe.
Claro que isso foi um processo inconsciente, que quase três anos depois estou colocando em palavras. Observando a mim mesma recém parida, eu não enxergava outra possibilidade, se não a de amamentar.
Não havia mamadeiras ou outros leites em casa. Não havia outra coisa em minha cabeça. E as duas pessoas que me acompanhavam jamais apresentaram qualquer senão para as minhas vontades. Calaram-se e viabilizaram, como deve ser no pós parto.
Eu ignorei que estava em processo de recuperação da cirurgia. Fui bem rígida comigo mesma no que diz respeito ao aspecto emocional (eu tinha vontade de me jogar pela janela, como vêem, eu me contive).
Os primeiros 60 dias foram de dedicação TOTAL ao Joaquim no quesito amamentação. Eu-só-amamentava. De vez em quando eu tomava banho. De vez em quando eu comia. Eu tomava 8 litros de água por dia - por que me disseram que era essencial.
Foram 60 dias de crise - emocional, física e energética. Meus mamilos racharam e sangraram eu pensei em parar 3 vezes. Pensei que não daria conta, quase acreditei naquilo que o meio esperava de mim: que eu falhasse.
São muitos os problemas que ocorrem no processo de amamentação. Hoje penso que tudo está ligado ao íntimo sexual de cada mulher. Amamentar é deixar-se sugar, com prazer. E não por um homem amado (ou não, ho) - mas pela cria. Existem muitas confusões de sentimentos nessa prática, para mulheres criadas para crer que seus corpos são para tudo - menos para trazer prazer para si mesmas.]
Então poderia ter me faltado o leite. Então poderia ter me dado mil empedramentos. Então poderia eu ter sucumbido à pressão externa, ao cansaço, à lata de leite em pó. Meu filho poderia externar minhas próprias crises, e devolver o leite todo. Poderia ele não engordar. Poderia ele se contorcer em cólicas aterrorizantes que me fizessem desistir. Meu corpo escolheu rachar-se e sangrar. Eu escolhi enfrentar - com paliativos, compressas, luzes, pomadas, sol, leite, massagem - e seguir em frente.
A incapacidade que nos fora incutida se apresenta de diversas formas na hora de parir e amamentar um bebê, creio eu.
Era para ser natural, não foi natural não. Foi disparado por uma crise, motivado por uma necessidade absurda de conexão com aquele ser, com minhas próprias crenças no óbvio (que é a melhor opção para nutrir um bebê e ponto) e minha determinação em fazer dar certo.
Depoooooois, com tempo, prática, respiro, bebê crescendo, rosto corado, todo o prazer e momentos de glória prometidos no pacote "amamentar é a melhor coisa" apareceram. Eles aparecem mesmo, e são surpreendentes.
Me parece hoje que é necessário um meio e um indivíduo conivente. Quando um discorda do outro, a mudança é mais possível. Em tempo, não sou uma grande conformada com o meio, vivo escarafunchando, debatendo, questionando as coisas do jeito que estão. Mas me proponho igualmente a avaliar minha própria participação nas histórias.
Amamentar é uma das formas de entregar-se à maternidade, ao feminino. Pode nos ensinar muitas coisas sobre nós mesmos. E de quebra tem aquele cheiro gostoso na boca do filho, de leite azedinho, misturado com saliva, com pele, com suor. Um cheiro indescritível.
E com você, porque deu certo?
E se não deu, você sabe porque?
***
Cheguei um dia no consultório do pediatra na minha segunda fase de amamentação com mastite. Febre, dor no seio esquerdo, o único que todas as vezes que tive mastite se manifestou. Leite empedrado, com dois bebês mamando, vejam como o corpo acha um meio de dizer para a gente que algo não está bom.
O pediatra me olhou com aquela cara de guru, colocou a mão no próprio peito e mexeu como se mexesse no meu próprio coração e falou com uma paz que derramava da boca:
- O que está empedrado aqui no seu peito? Do lado esquerdo, dentro do coração?
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